Nas postagens
anteriores, concluimos que existe uma íntima relação entre a cólera (e a
diarréia em geral) e a pobreza (aliada à falta de saneamento básico):
A Pobreza e falta de saneamento aumenta em 5 vezes o
risco de morte por diarréia em crianças
...a pesquisa fez uma análise
espacial dos indicadores integrados de saúde e ambiente em todas as regiões do
país e descobriu que nas regiões Norte e Nordeste, sobretudo na Norte a
morbidade em crianças menores de um ano por diarréia são até cinco vezes
maiores do que o percentual registrado na região Sul...
...as condições ambientais e
socioeconômicas são fatores determinantes para aumentar o risco de morte em
crianças. Entre os indicadores pesquisados tem-se percentual de moradores em
extrema pobreza, a quantidade de dependentes econômicos por familiar
economicamente ativo em cada residência, o número de pessoas que jogam o esgoto
diretamente no meio ambiente sem qualquer tratamento, a falta de abastecimento
de água tratada e água encanada dentro da residência. Também foram considerados
no estudo os indicadores como a presença ou não de sanitários e coleta de lixo...
...esses indicadores respondem
por quase 50% dos casos de internações por diarréia em crianças menores de um
ano, e por um quarto das mortes por diarréia registradas, o que aponta para a
necessidade urgente de investimentos em infraestrutura básica de saúde e meio
ambiente, como o saneamento básico e água tratada.
Analisando essa temática sobre um ponto de vista literário, Ferreira Gullar, poeta
neoconcretista brasileiro, fez uma crítica na forma de poema sobre a situação
brasileira no quesito pobreza x diarréia:
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| Ferreira Gullar |
A Bomba Suja
Introduzo na poesia
A palavra diarréia. Não pela palavra fria Mas pelo que ela semeia. Quem fala em flor não diz tudo. Quem me fala em dor diz demais. O poeta se torna mudo sem as palavras reais. No dicionário a palavra é mera idéia abstrata. Mais que palavra, diarréia é arma que fere e mata. Que mata mais do que faca, mais que bala de fuzil, homem, mulher e criança no interior do Brasil. Por exemplo, a diarréia, no Rio Grande do Norte, de cem crianças que nascem, setenta e seis leva á morte. É como uma bomba D que explode dentro do homem quando se dispara, lenta, a espoleta da fome. É uma bomba-relógio (o relógio é o coração) que enquanto o homem trabalha vai preparando a explosão. Bomba colocada nele muito antes dele nascer; que quando a vida desperta nele, começa a bater.
Bomba
colocada nele
Pelos séculos de fome e que explode em diarréia no corpo de quem não come. |
Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa que elimina sem barulho vários milhões de crianças. Sobretudo no nordeste mas não apenas ali que a fome do Piauí se espalha de leste a oeste. Cabe agora perguntar quem é que faz essa fome, quem foi que ligou a bomba ao coração desse homem. Quem é que rouba a esse homem o cereal que ele planta, quem come o arroz que ele colhe se ele o colhe e não janta. Quem faz café virar dólar e faz arroz virar fome é o mesmo que põe a bomba suja no corpo do homem. Mas precisamos agora desarmar com nossas mãos a espoleta da fome que mata nossos irmãos. Mas precisamos agora deter o sabotador que instala a bomba da fome dentro do trabalhador. E sobretudo é preciso trabalhar com segurança pra dentro de cada homem trocar a arma de fome pela arma da esperança. |
Agora cabe a nós analisar e refletir sobre o texto numa perspectiva mais científica e bioquímica: Será que a fome é
realmente a responsável pelos surtos de diarréia nas comunidades pobres? As
crianças realmente sofrem mais de diarréia que os mais velhos? Quem é o responsável
por fazer o arroz virar fome? De onde surgiu a ''bomba suja'' dentro dos
homens? Será que ainda há esperanças?
Fontes:
http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/repofegu.htm
http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/conteudo/pobreza-e-falta-de-saneamento-aumenta-em-5-vezes-o-risco-de-morte-por-diarreia-em-criancas

Todos os anos, aproximadamente 2 milhões de crianças ao redor do mundo morrem de diarreia. Nos países mais pobres, a diarreia é a terceira causa mais comum de morte em crianças menores de 5 anos, ficando logo atrás das causas neonatais e da pneumonia. O aspecto mais interessante das análises realizadas sobre os óbitos por diarreia é a documentação da redução de disparidades geográficas, que reflete uma queda nas iniquidades socioeconômicas.
ResponderExcluirCom a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), e em particular a criação do Programa de Saúde da Família em 1994, o acesso à assistência primária à saúde aumentou substancialmente. Esta última estratégia teve como alvo principal os municípios e comunidades pobres de áreas urbanas, por exemplo as favelas urbanas. Diversas análises ecológicas sugerem que o programa teve um impacto positivo sobre a mortalidade infantil, especialmente por meio da redução nos óbitos por diarreia.
A diarreia está intimamente relacionada com a desidratação decorrente da perda exagerada de líquidos.Em se tratando das pessoas que se inserem no foco da doença, nessa característica encontramos duas questões. Pessoas com perda muito grande de água devem repô-la continuadamente, o que não ocorre como deveria, visto que em regiões mais pobres o tratamento da água é precário, o que não concede mais saúde para o paciente. A outra questão é que, durante a perda de água, também são perdidos sais minerais, que devem ser repostos através da administração de soro fisiológico o que também não está disponível para essas pessoas. Dessa forma, problemas mais graves de metabolismo podem ocorrer, o que não é bom para a saúde da pessoa, do meio de vida da pessoa e do próprios serviços de saúde.
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ResponderExcluirComo já foi comentado em postagens anteriores sobre a patologia em todos os sentidos, vale citar como a cólera chegou ao Brasil. Até 1991, o Brasil era uma área indene para cólera. A epidemia que atingiu o País, a partir daquele ano, faz parte da progressão da sétima pandemia iniciada em 1961, com um foco epidêmico em Sulawesi, ex-Célebes (Indonésia), que se espalhou por países da Ásia, Oriente Médio, África e regiões da Europa, com eventuais achados nos Estados Unidos desde a década de 1970. Essa pandemia atingiu o continente sul-americano pelo litoral do Peru, em janeiro de 1991, estendendo-se, logo em eguida, por todo aquele país, e para o Brasil, e atingindo 14 países da América do Sul. Entrou no Brasil no alto do Solimões e se alastrou pela região Norte, depois para a região nordeste e posteriormente para as outras regiões.
ResponderExcluirÉ importante saber que existem alguns tipos de diarreia. A diarreia é classificada em Aguda, quando dura até 14 dias, Persistente, superior a 14 dias ou ainda Crônica, quando ultrapassa de 3 semanas. Essa classificação tem importância porque o tratamento e a investigação de cada um dos tipos é diferente.
ResponderExcluirA cólera é uma doença dos pobres e de países mergulhados na pobreza, dizem alguns. A cólera é ela mesma um indicador de pobreza generalizada, assim, adquire também fóruns de doença política. É uma doença resultante de políticas predadoras ou da não existência de políticas de gestão da coisa pública e da cidade, ou seja políticas (não ter política é uma política) fundadas no demissionismo dos órgãos da Administração do Estado, na exclusão que engendra a situação de deserdados em que vive a maioria das cidadãs e cidadãos. É fruto da falta de acesso de boa parte da população a serviços dignos como água tratada e saneamento básico. É ridículo que em um mundo que se diz desenvolvido ainda existam pessoas que contraem doenças de tão simples prevenção. É só mais um reflexo dos efeitos devastadores do capitalismo e de sua diferença de classes na sociedade atual.
ResponderExcluirSem duvidas, a retirada da terra do homem, provocando concentração de terras e alienação da terra ao homem do campo tem provocado fome nas regiões menos atendidas, como norte e nordeste. Os indicadores sociais de morte de crianças na região norte quando comparadas com os da região sul, cinco vezes menor, são o alarme para a influencia que a desigualdade social provoca na mortalidade de crianças. Essa bomba-relógio só conta pela retirada do pino da bomba, que é a terra, fonte de alimento e existência, do coração do homem.
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